sábado, 21 de novembro de 2009

Uma tarde no Harlem


Nesta postagem, farei algo que não costumo fazer neste blog: contar o nosso dia. Mas como fomos pouquíssimas vezes ao Harlem, acredito que seja muito mais honesto com vocês falar do que fizemos, do que palpitar sobre o que não conhecemos direito.

A nossa ida ao Harlem teve um motivo muito específico, havíamos comprado ingressos para o musical Dreamgirls no Apollo Theater (dica anterior), para a sessão das duas da tarde.

O Harlem
Resolvemos sair de casa um pouco mais cedo e explorar a área. Com o trem 6 (linha verde do metrô), descemos na estação da Rua 125 com a Lexington e fomos andando até o teatro. A intenção era pegar algumas ruas paralelas, talvez passar pelo Marcus Garvey Park e o setor histórico do Harlem, na Malcom X Boulevard. No entanto, confesso com ficamos um pouco amedrontados com a vizinhança, sensação um tanto incomum após tanto tempo morando em Nova York.


Não dá para dizer que o Harlem seja decadente, porque imagino que seja bem menos decadente do que devia ser há 30 ou 40 anos. Aliás, o Harlem é um dos bairros que mais tem atraído novos moradores, por causa dos aluguéis exorbitantes abaixo da rua 110. Mesmo assim, a maioria dos moradores ainda é de negros e muitos são bastante mal encarados. Eu estava bastante preocupado em andar com a minha câmera no pescoço e atrair atenção, ainda mais porque éramos uns dos raríssimos brancos nas ruas.

O trecho da rua 125 entre a Lexington e a Malcom X Boulevard é particularmente assustador, com vários terrenos abandonados, lojas fechadas e alguns ambulantes. Da Malcom X Blv. em diante, no sentido West Side, o clima das ruas muda bastante, com algumas lojas mais modernas e mais turistas, já que o Harlem no West Side já é bem mais diversificado culturalmente, pois é residência de vários estudantes universitários, por causa da Columbia University.

A região do Apollo Theater é bastante movimentada e, aparentemente, mais segura, em especial durante a entrada e saída dos espetáculos.

Almoçamos num Burguer King e pagamos pouco mais de 10 dólares pelo nosso lanche: nuggets, batata-frita grande, refrigerante grande e umas bolinhas de queijo (são gostosas, vale a pena experimentar, chamadas "cheesy tots"). Como éramos os únicos brancos na lanchonete, comemos tudo rapidinho e demos no pé.

O Apollo Theater


O Apollo Theater estava cheio, principalmente porque havia um descontão para residentes do Harlem. Por isto, mais uma vez, os negros eram a maioria, o que foi engraçado e inconveniente ao mesmo tempo: engraçado porque os mais velhos são umas figuras, parecem saídos dos filmes do Eddie Murphy, bastante caricatos; incoveniente porque parecia que muitos nunca haviam estado num teatro antes na vida, era telefone celular tocando o tempo todo, gente se levantando no meio do musical, tirando foto com flash e, o mais bizarro, havia um bar no mezanino do teatro e alguns dos expectadores vinham com cerveja e coquetéis para as poltronas, além de que algumas pessoas achavam que estavam no sofá de casa, esticando os pés nas poltronas da frente. Algo que, com certeza, não ocorre na Broadway.
O Apollo é um teatro bonito, mas um tanto desconfortável. Por outro lado, não é muito grande, o que permite uma boa visibilidade mesmo das poltronas mais afastadas do palco.

Dreamgirls


"Dreamgirls" foi um musical muito bom, com elenco de primeira. O primeiro ato é, de longe, muito melhor que o segundo, e como as poltronas do Apollo são apertadas, eu mal me aguentava sentado da segunda metade em diante.


Há uma ênfase muito maior nas canções e na performance dos atores do que na parafernália do palco. Os cenários são bastante simples, mas criativos. Por outro lado, as canções, especialmente "And I'm telling you I'm not going", são incríveis, do tipo que arrepiam e chegou até a sair algumas lagriminhas... Realmente impressionante.

O jantar
Para encerrar o nosso passeio no Harlem, queríamos comer num típico restaurante negro. A ideia inicial era ir ao Sylvia's (http://www.sylviassoulfood.com/), na Malcom X Boulevard entre as ruas 126 e 127, que é um dos restaurantes mais tradicionais do Harlem. Contudo, lemos algumas críticas muito negativas sobre o ambiente e os pratos, então decidimos procurar um outro lugar, menos turístico.

Fizemos uma triagem e chegamos nos seguintes restaurantes:

- Sister's Cuisine, na Madison Ave com a rua 124;

- Mobay, na rua 125 entre a Quinta Avenida e Malcom X Blv.;
http://www.mobayuptownnyc.com/

- Manna's, também na 125, entre Quinta e Malcom X;
http://www.mannasrestaurants.com/

- Harlem BBQ, na Frederick Douglas Blv, com a rua 127.
http://www.harlembbq.com/

e, por fim,

- Amy Ruth's, na rua 116 com a Malcom X Blv.
http://www.amyruthsharlem.com/

Como a gente não conseguia escolher um deles, achamos melhor passar na frente dos restaurantes, dar uma olhada na cara e checar se nos agradavam.
Não vimos o Mobay, mas o Manna's é do estilo all you can eat (buffet, no qual você pode repetir quantas vezes quiser), só que é um restaurante meio pra baixo, com um clima esquisito, preferimos não arriscar.
Já o Harlem BBQ, parece se assemelhar, tanto no cardápio quanto no estilo do restaurante, com o Dallas BBQ, por isto, optamos por uma comida mais caseira.

Amy Ruth's
Acabamos indo ao Amy Ruth's, que possuía na internet e no Zagat (http://www.zagat.com/) algumas críticas muito boas.
Fomos andando do Apollo até lá e eu preferi guardar minha câmera, já que a região não nos parecia muito segura.
Havia uma pequena lista de espera no Amy Ruth's e, como eles não estavam aceitando cartão de crédito ou débito, a Denise teve de correr até um caixa eletrônico, que foi o tempo suficiente para sermos chamados para nossa mesa.
O restaurante é pequeno (apesar de haver uma portinha que levava para um segundo salão nos fundos, acho), com aspecto de restaurante de beira de estrada. O atendimento foi razoável e a comida foi servida rapidamente.
Havíamos pedido um frango frito no mel, com fritas e purê, mas estava intragável, então a Denise resolveu pedir asas de frango, que não experimentei, mas segundo ela estavam "gostozinhas". Também pedimos Macarroni'n'cheese, que é um macarrão com queijo ao forno, que não chega a ser bom, mas também não é insosso.

Conclusão: a Pepsi estava muito boa.

A conta saiu 35 dólares, com a gorjeta, e saímos do restaurante profundamente arrependidos.

Resumo da história


A não ser que você tenha algum programa específico para fazer, como ir a uma missa gospel, ou ao Apollo Theater, acho que uma visita ao Harlem é prescindível.
É um bairro pitoresco, mas sem grandes atrações turísticas relevantes, excetuando no West Side, onde fica a St. John the Divine Cathedral e a Columbia University, ou os Cloisters, no topo da ilha de Manhattan, que é um monastério medieval trazido da Europa e abriga parte do acervo de arte medieval do Metropolitan Museum.
O restante dá para pular.

Não dá para dizer que seja um bairro perigoso, senão certamente teríamos sido roubados em alguma quebrada. Todavia, passa uma sensação de insegurança e nos sentimos um pouco oprimidos, como peixes fora d'água.

***

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